O reajuste da conta de luz voltou a pesar no orçamento de consumidores e empresas em 2026. Em diferentes regiões do país, distribuidoras já anunciaram aumentos que, em alguns casos, ultrapassam os dois dígitos.
Mas afinal: por que a conta de luz continua subindo? E o que realmente compõe a tarifa de energia elétrica?
Entender essa estrutura é importante porque o valor pago mensalmente não depende apenas do consumo. Na verdade, a tarifa é influenciada por fatores regulatórios, climáticos, operacionais e até por políticas públicas do setor elétrico.
O que compõe a conta de luz?
A conta de luz é calculada com base no consumo de energia da unidade, medido em kWh (quilowatt-hora). Sobre esse consumo, são aplicados diferentes custos do setor elétrico, como, por exemplo, geração, transmissão, distribuição, encargos e tributos.
De acordo com a Série Energia da USP, essa é composição da sua conta de energia:

1. Geração de energia
É o custo da produção da energia nas usinas hidrelétricas, termelétricas, solares, eólicas e demais fontes do sistema.
Esse componente varia conforme fatores como nível dos reservatórios, acionamento de termelétricas, preço dos combustíveis e oferta de energia.
Por isso, quando o sistema precisa utilizar fontes mais caras, como termelétricas, o custo da geração aumenta e impacta diretamente a tarifa.
2. Transmissão de energia
Corresponde aos custos da infraestrutura responsável por transportar a energia das usinas até os centros consumidores.
Aqui entram, por exemplo, linhas de transmissão, subestações, expansão da rede e manutenção do sistema elétrico nacional.
Entre eles: TUST, Rede Básica e Rede Básica Fronteira.
3. Distribuição de energia
É a etapa que leva a energia até residências, empresas e indústrias.
Ou seja, esse componente inclui operação das distribuidoras, manutenção da rede urbana, atendimento ao consumidor, investimentos técnicos e perdas elétricas.
4. Encargos e tributos
A conta também inclui encargos setoriais e impostos, como CDE Uso, CDE GD, TFSEE, PROINFA, ICMS, PIS e Cofins.
Esses valores financiam programas públicos do setor elétrico, como tarifa social, universalização da energia e incentivos para determinadas fontes.
Qual a média de aumento da conta de luz em 2026?
Em junho, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) elevou a projeção dos reajustes das tarifas de energia elétrica em 2026 para 8,6%, acima das projeções do IGP-M (5,8%) e do IPCA (4,9%).
Mas, o reajuste da conta de luz varia conforme a distribuidora e a região do país. Isso acontece porque cada empresa possui contratos, custos operacionais e níveis de perdas diferentes, fazendo com que algumas regiões enfrentem aumentos maiores que outras.
Distribuidoras que já anunciaram reajustes tarifários em 2026
Os reajustes tarifários anunciados pelas distribuidoras em 2026 apresentam aumentos expressivos, com média de 12,37% entre as principais concessionárias.
Entre os índices já anunciados, temos, por exemplo:
- Light (RJ): reajuste médio de 16,69%
- CPFL Paulista: reajuste médio de 9,15%
- Enel Rio: reajuste médio de 15,46%
- Energisa MS: reajuste médio de 12,11%
- Energisa MT: reajuste médio de 6,86%
- Equatorial Amapá: reajuste médio de 3,54%
- Copel (proposta em consulta pública): reajuste médio de 19,20%
Assim, esse cenário reforça uma tendência observada nos últimos anos: reajuste da conta de luz acima da inflação, aumentando a pressão no orçamento dos consumidores e nos custos operacionais das empresas.
Os principais fatores que pressionam a conta de luz em 2026
O reajuste da conta de luz não ocorre de forma aleatória, mas resulta de componentes específicas e bem definidas que compõem a estrutura tarifária. Para começar a entender os fatores, é preciso aprofundar um pouco mais na composição da conta de energia.
Estrutura tarifária brasileira: parcela A e parcela B
Podemos entender a tarifa de energia como a soma de dois grandes blocos de custos:
- Parcela A (custos não gerenciáveis)
Representa os custos que não são controlados pelas distribuidoras, pois refletem políticas públicas, custos de transmissão e compra de energia. Em geral, ela é composta por encargos setoriais, custos de transmissão e custos de compra de energia (contratos de energia, perdas técnicas).
- Parcela B (custos gerenciáveis)
Representa os custos operacionais das distribuidoras, incluindo, por exemplo:
- custos de pessoal;
- custos de operação e manutenção;
- remuneração do capital investido;
- depreciação de ativos.
Este ano, os custos operacionais das distribuidoras ajudaram a segurar o reajuste da conta de luz, com impacto médio de -0,32% nas tarifas.
Isso aconteceu porque os custos das distribuidoras cresceram menos do que o nível de eficiência exigido pela ANEEL, o que acabou reduzindo parte da pressão sobre a tarifa.
2. Os 5 principais fatores que aumentam a tarifa de energia
1. CDE uso: o maior vilão
A Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) Uso é o componente individual de maior impacto nos aumentos tarifários, contribuindo com uma média de 3,50% para o efeito médio.
Esse encargo é uma quota anual usada para custear os objetivos gerais da CDE, definida anualmente pelo Poder Executivo. Portanto, ela é paga por todos os agentes que atendem consumidores finais cativos e livres no Sistema Interligado Nacional (SIN).
Por que ele aumentou tanto?
O aumento expressivo da CDE Uso em 2026 é consequência direta da Lei nº 15.269/2025, que extinguiu a CDE GD (Geração Distribuída) como encargo separado e incorporou seus custos à CDE Uso.
Além disso, essa mudança:
- consolidou encargos: o que era um encargo separado (CDE GD) agora faz parte da CDE Uso;
- ampliou a base de arrecadação: consumidores livres, que antes não pagavam CDE GD, agora contribuem para a CDE Uso;
- aumentou o orçamento: o Poder Executivo definiu um orçamento maior para 2026.
Componentes da CDE Uso
| Componente | Função | Status em 2026 |
| CDE Uso (Geral) | Subsídios a baixa renda, fonte de energia incentivada, modicidade tarifária, eficiência energética | Ativo – Orçamento aumentado |
| CDE Covid | Alívio de caixa das distribuidoras (parcelamento 60 meses) | Ativo – Continuando parcelamento |
| CDE Escassez Hídrica | Cobertura de custos de escassez (já quitada em 2024) | Quitado – Cobertura mantida |
| CDE GD | Compensação de perdas por geração distribuída | Incorporado à CDE Uso |
| CDE Eletrobras | Aporte de 50% do valor adicionado pela Eletrobras | Ativo – Aporte anual |
Variação por distribuidora
- Maior impacto: CPFL Paulista com 5,32%
- Menor impacto: Energisa Mato Grosso com 2,33%
- Amplitude: 2,99 pontos percentuais
Importante: A CDE Uso não é controlável pelas distribuidoras. Ela reflete políticas públicas e é repassada integralmente aos consumidores via tarifa.
2. Componentes financeiros: CVA em processamento
Os componentes financeiros representam a segunda maior pressão tarifária, com impacto médio de 3,28%.
A CVA é um mecanismo de compensação que captura as diferenças entre a cobertura tarifária concedida no processo anterior e os custos efetivamente incorridos pelas distribuidoras
Em outras palavras, ela funciona como um acerto de contas entre o que foi previsto e o que realmente aconteceu.
Por que ela aumentou?
A CVA em processamento aumentou porque:
- custos de energia superiores ao previsto: os preços dos contratos de energia foram maiores que o estimado;
- custos de transporte maiores: os custos de transmissão superaram as previsões;
- encargos setoriais não cobertos: parte dos encargos não foi adequadamente coberta na tarifa anterior.
Decomposição da CVA
A CVA é composta por três elementos principais.
| Elemento | Impacto Médio | Descrição |
| CVA Energia | 2,54% | Diferença entre preço de energia contratado e tarifa concedida |
| CVA Transporte | 0,75% | Diferença entre custos de transmissão e tarifa concedida |
| CVA Encargos | 1,42% | Diferença entre encargos setoriais e tarifa concedida |
3. Encargos setoriais: além da CDE Uso
| Encargo | Função | Impacto médio |
| TFSEE | Taxa de Fiscalização de Serviços de Energia Elétrica (custeio da ANEEL) | aproximadamente 0,15% |
| ESS/EER/ERCAP | Encargos de Serviços do Sistema / Energia de Reserva / Encargo de Capacidade | aproximadamente 0,10% |
| PROINFA | Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica | aproximadamente 0,05% |
Nota: A CDE GD apresentou impacto negativo médio de -0,64% em 2026, representando a redução do encargo específico após sua incorporação à CDE Uso.
4. Custos de transmissão: TUST e rede básica (0,83% de impacto médio)
Os custos de transmissão aumentaram devido a:
- novas receitas anuais permitidas (RAP): aprovadas em julho de 2025 para o ciclo 2025-2026;
- novas tarifas de uso do sistema de transmissão (TUST): aplicadas conforme REH nº 3.481 e 3.482;
- aumento da contratação de MUST: maior contratação de Mercado de Uso do Sistema de Transmissão;
- custos de rede básica: aumento dos custos da infraestrutura de transmissão.
5. Custos de compra de energia: contratos e perdas
Os custos de compra de energia aumentaram principalmente por:
- atualização de preços de CCEARs: contratos de energia de curto prazo com preços atualizados;
- cotas Lei 12.783/2013: aumento nos custos de geração das usinas;
- variação cambial: impacto na contratação de Itaipu (parcialmente compensado por redução do dólar);
- perdas técnicas: aumento nos custos de compensação de perdas na rede.
Subsídios incluídos na tarifa de energia
Um ponto importante, e pouco conhecido, é que a conta de luz também inclui subsídios do setor elétrico que são repassados aos consumidores pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
Entre eles, temos, por exemplo:
| Subsídio | Beneficiário | Função |
| Tarifa incentivada (carga fonte incentivada) | Indústrias eletrointensivas | Redução de custos para competitividade |
| Tarifa social | Consumidores de baixa renda | Acesso à energia a preço acessível |
| Subvenção de fontes renováveis | Produtores de energia renovável | Incentivo à geração limpa |
| Compensação MMGD | Consumidores com geração distribuída | Compensação de perdas de receita |
Como funcionam os subsídios
Os subsídios funcionam através de um mecanismo de retirada da estrutura tarifária:
- a distribuidora oferece uma tarifa reduzida para o consumidor subsidiado;
- em seguida, a CCEE compensa a diferença entre a tarifa normal e a tarifa reduzida.
- essa compensação é repassada mensalmente à distribuidora;
- assim, o custo total dos subsídios é incorporado à tarifa de todos os consumidores.
Impacto na conta de luz
Os subsídios influenciam a tarifa de energia por três motivos principais:
- o custo total é definido anualmente: então, quanto maior o orçamento destinado aos subsídios, maior tende a ser o valor arrecadado dos consumidores;
- o custo é compartilhado entre os usuários do sistema: logo, o financiamento dos subsídios é dividido entre os consumidores por meio dos encargos setoriais;
- os valores são reajustados periodicamente: portanto, os aumentos nos programas subsidiados podem elevar os custos repassados à tarifa.
Fatores secundários
Inflação acumulada (IGP-M)
O IGP-M, descontado o Fator X (eficiência esperada), determina o reajuste da Parcela B. Em 2026, o IGP-M acumulado foi negativo (-1,98%), resultando em redução da Parcela B.
Perdas técnicas e não técnicas
As perdas na rede (técnicas e não técnicas) aumentam o custo de energia necessária para atender o mercado. Assim, aumentos nas perdas resultam em maior custo de compra de energia.
Redução de mercado
Algumas distribuidoras enfrentaram redução de mercado (consumo de energia), o que aumenta o custo por unidade de energia, pois os custos fixos (transmissão, encargos) são distribuídos entre um número menor de consumidores.
Diferenças entre alta tensão e baixa tensão
Os consumidores de alta tensão (indústrias e grandes comércios) sofreram reajustes maiores que os de baixa tensão (residenciais e pequenos comércios):
- alta tensão: reajuste médio de 15,8%;
- baixa tensão: reajuste médio de 11,0%.
Os componentes da tarifa impactam cada grupo de forma diferente, o que explica essa diferença.
Os consumidores de alta tensão possuem maior:
- peso dos custos de transmissão na composição da tarifa;
- participação da TUSD, que concentrou boa parte dos aumentos de 2026;
- exposição aos encargos setoriais, especialmente para consumidores do mercado livre de energia.
Conclusão
O aumento de 12,37% na tarifa média de 2026 resulta de uma combinação de fatores, sendo os principais:
- CDE Uso (3,50%): incorporação de CDE GD e orçamento aumentado;
- Componentes financeiros (3,28%): CVA em processamento capturando diferenças de custos;
- Encargos setoriais (2,68%): múltiplos encargos além da CDE Uso;
- Custos de transmissão (0,83%): novas RAP e TUST aprovadas;
- Custos de energia (1,05%): atualização de preços de contratos.
Esse reajuste da conta de luz reflete principalmente custos não controlados pelas distribuidoras, especialmente políticas públicas (CDE Uso) e diferenças entre previsões e custos reais (CVA).
Ao mesmo tempo, a Parcela B (custos operacionais) apresentou redução, indicando que a eficiência das distribuidoras ajudou a conter os aumentos.




