Luzes do galpão acesas, representando a demanda que será medida, que pode ser diferente da demanda contratada

Demanda medida x demanda contratada: entenda as diferenças e como evitar custos extras

A demanda é um dos principais componentes da fatura de energia para consumidores do Grupo A (média e alta tensão). Apesar disso, muitas empresas ainda mantêm valores de demanda contratada  acima ou abaixo da necessidade real, o que pode gerar desperdícios financeiros ou multas por ultrapassagem.

Na prática, entender a diferença entre demanda contratada e demanda medida é essencial para manter os custos de energia sob controle e evitar distorções no faturamento.

Esse acompanhamento se tornou ainda mais importante com as recentes mudanças regulatórias do setor elétrico, como a publicação da Lei nº 15.269/2025, especialmente para consumidores do mercado livre de energia com contratos de energia incentivada.

 

O que você vai encontrar neste conteúdo:

 

O que é uma demanda contratada?

A demanda contratada é a potência, em quilowatts (kW), reservada junto à distribuidora para atender continuamente a unidade consumidora. Em outras palavras, é o valor de potência que a distribuidora deve estar preparada para atender a qualquer momento aquele consumidor.

 

O que é uma demanda medida?

A demanda medida corresponde ao pico de demanda efetivamente registrado durante o período a ser faturado. A distribuidora calcula esse valor com base nas medições de consumo registradas pelo medidor ao longo do mês.

 

Diferença entre demanda contratada e demanda medida

Característica Demanda contratada Demanda medida
O que é Potência reservada junto à distribuidora Maior potência efetivamente utilizada no período
Quem define Consumidor, junto à distribuidora Medidor da distribuidora
Objetivo Garantir disponibilidade de potência Registrar o pico real de consumo
Relação com ultrapassagem Serve como limite de referência É comparada à demanda contratada
Pode ser alterada? Sim, mediante solicitação à distribuidora Não, pois depende do consumo real da unidade

 

Por que é importante entender a demanda contratada e a demanda medida?

Consumidores do grupo A devem entender a diferença entre demanda contratada e demanda medida para controlar melhor os custos de energia.

Isso porque existem dois riscos principais:

  • demanda abaixo da contratada: o consumidor pode acabar pagando por uma capacidade que não utilizou totalmente;
  • demanda acima da contratada: podem ocorrer cobranças adicionais por ultrapassagem.

 

Como a demanda medida é calculada?

A demanda medida está diretamente ligada à forma como a distribuidora mede a potência utilizada pela unidade consumidora ao longo do tempo.

A medição acontece em intervalos de 15 minutos, conforme padrão estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Mas, em alguns casos, medidores mais antigos podem utilizar intervalos diferentes. 

Durante cada período, o medidor registra a energia consumida e, ao final do mês, a distribuidora identifica qual foi o maior valor registrado entre todos os intervalos medidos. A distribuidora utilizará esse dado para calcular a demanda medida da unidade consumidora.

Para transformar o consumo em potência (kW), é necessário aplicar um fator de multiplicação conforme a frequência de leitura: 

Intervalo de medição Fator aplicado
15 minutos Multiplica por 4
30 minutos Multiplica por 2
60 minutos Não há multiplicação

 

Exemplo prático

Imagine que, em um intervalo de 15 minutos, uma indústria consumiu 250 kWh. Nesse caso, a demanda registrada será:

250 × 4 = 1.000 kW

 

Ou seja, a distribuidora entende que, naquele intervalo, a unidade consumidora demandou potência equivalente a 1000 kW. Caso esse seja o maior valor registrado entre todos os intervalos do mês, a demanda medida será 1000 kW.

 

Diferença de cobrança entre modalidade tarifária verde e azul 

Dependendo da modalidade tarifária do consumidor, a demanda pode ser separada entre os horários de ponta e fora ponta.

  • Na modalidade tarifária verde existe apenas uma única demanda, sem separação entre ponta e fora ponta. 
  • Na modalidade azul as demandas são separadas em demanda medida ponta e demanda medida fora ponta.

 

Isso faz com que consumidores da modalidade azul precisem ter maior controle sobre os picos de carga, principalmente no horário de ponta, onde as tarifas são mais elevadas. 

Por outro lado, a modalidade azul pode ser vantajosa para consumidores com maior consumo fora ponta, já que a tarifa nesse período costuma ser menor quando comparada à modalidade verde.

 

Como funciona a cobrança de demanda na fatura de energia

De forma simplificada, a cobrança da demanda segue a seguinte fórmula:  

Custo = Tarifa × Demanda + PIS/COFINS + ICMS

 

Os valores de tarifa e impostos variam conforme a distribuidora, o estado da unidade consumidora, modalidade tarifária e tipo de contrato de energia.

Para consumidores do mercado livre de energia com energia incentivada, por exemplo, existe desconto na tarifa da demanda TUSD. Em um contrato de energia incentivada de 50%, por exemplo, a tarifa aplicada será:

Tarifa final = Tarifa × 0,5

 

Principais cenários de cobrança 

A cobrança da demanda pode variar conforme os valores registrados e as regras da distribuidora. Em geral, existem três cenários principais.

 

1. Demanda abaixo da contratada 

Quando a demanda medida é menor que a demanda contratada, o consumidor acaba pagando também pela parcela de energia não utilizada. 

O cálculo dessa parcela normalmente segue a mesma tarifa da demanda medida, podendo variar apenas na incidência de ICMS. 

Além disso, na maioria dos estados, a legislação estadual prevê que o ICMS não incida sobre a parcela não utilizada da demanda.

 

2. Ultrapassagem de demanda 

Quando a demanda medida ultrapassa em mais de 5% a demanda contratada, ocorre a cobrança de demanda de ultrapassagem. 

Nessa situação, a tarifa aplicada normalmente corresponde ao dobro da tarifa da demanda TUSD, sem aplicação de descontos de energia incentivada sobre essa parcela.

 

3. Faturamento normal 

Quando nenhuma das situações anteriores ocorre, a distribuidora realiza o faturamento apenas sobre a demanda medida.

Na modalidade azul, os cálculos de demanda na ponta e fora ponta são feitos separadamente. Assim, pode haver ultrapassagem ou sobra de demanda em apenas um dos períodos. 

 

Demanda reativa excedente

Além da demanda ativa, consumidores do Grupo A também podem ser cobrados por demanda reativa excedente, um componente adicional da fatura relacionado ao fator de potência da instalação. 

Na prática, ela ocorre quando a instalação consome energia reativa em níveis acima dos limites definidos pela ANEEL, normalmente devido ao funcionamento de motores, transformadores e outros equipamentos elétricos. 

Por isso, acompanhar a qualidade elétrica da instalação e manter o fator de potência adequado é importante para evitar custos desnecessários. 

 

Exemplo de cálculo: demanda não utilizada

Considere o seguinte cenário:

Item Valor
Demanda contratada 500 kW
Demanda medida 420 kW
Tarifa de demanda R$ 20/kW
Energia contratada Incentivada 50%
ICMS 18%
PIS/COFINS 5%

 

Nesse caso, a tarifa final aplicada será:

20 × 0,5 = R$ 10/kW

 

O valor com impostos, calculado sobre a demanda medida, será:

420 × 10 ÷ ((1 − 0,18) × (1 − 0,05)) = R$ 5.391,53

 

Porém, como o ICMS incide apenas sobre os 420 kW efetivamente utilizados, a distribuidora cobra os 80 kW não utilizados (500 − 420) sem a incidência do imposto:

80 × 10 ÷ (1 − 0,05) = R$ 842,11

 

Então, o valor final será a soma das duas parcelas:

R$ 5.391,53 + R$ 842,11 = R$ 6.233,64

 

Exemplo de cálculo: ultrapassagem de demanda

Agora considere:

Item Valor
Demanda contratada 500 kW
Demanda medida 535 kW
Tarifa de demanda R$ 20/kW
Energia contratada Incentivada 100%
ICMS 18%
PIS/COFINS 5%

 

O limite sem multa será:

500 × 1,05 = 525 kW

 

Logo, haverá ultrapassagem de:

535 – 500 = 35 kW

 

A fórmula do custo sem impostos ficará:

Custo = Tarifa × Demanda × (1 – Desconto_TUSD) + 2 × Tarifa × Ultrapassagem

 

Como o contrato possui 100% de desconto na TUSD demanda, a primeira parcela fica zerada, permanecendo apenas a multa de ultrapassagem. O total sem impostos será:

2 × 20 × 35 = R$ 1400

 

Assim, o valor final com impostos será:

R$ 1400 ÷ ((1 − 0,18) × (1 − 0,05)) = R$ 1797.18

 

Como reduzir custos com a demanda contratada?

Monitorar continuamente a demanda contratada é essencial para evitar:

  • pagamento por capacidade não utilizada;
  • multas por ultrapassagem;
  • distorções no faturamento;
  • identificar oportunidades de redução de custos.

 

Muitas empresas mantêm contratos desatualizados por anos sem revisar o perfil real de consumo.

E, na prática, ajustes corretos na demanda contratada podem gerar economias relevantes já nos primeiros meses.

Na Voltera, já tivemos casos de clientes que pagavam altos custos em demanda de ultrapassagem, e após análise técnica e solicitação de ajuste da demanda contratada junto à distribuidora, obtiveram economias significativas nos custos mensais de energia.

Por isso, nossa equipe apoia consumidores do Grupo A na análise técnica da demanda, identificação de oportunidades de redução de custos e acompanhamento estratégico no mercado livre de energia.