Alan Henn, CEO e fundador da Voltera falando sobre os 6 anos da empresa

A crise do mercado livre de energia não é estrutural, mas vai mudar o setor

O mercado livre de energia atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A combinação entre alta dos preços, curtailment, quebra de empresas e redução de liquidez criou um ambiente de maior insegurança para consumidores, geradores e comercializadoras.

Ao mesmo tempo, a crise está acelerando o amadurecimento do setor. Critérios como solidez financeira, governança e capacidade operacional passaram a ganhar mais peso na decisão dos consumidores.

Ouso dizer que a crise no mercado livre de energia atual é conjuntural, não estrutural. E os próximos anos devem definir quais empresas estão preparadas para atravessar o próximo ciclo do setor.

 

Mas, o que está provocando a crise no mercado de energia?

A crise atual é resultado da combinação de três fatores principais que acabam se retroalimentando.

 

Alta do PLD pressiona o custo da energia

O primeiro fator é a alta do preço de curto prazo da energia. O custo de geração no sistema aumentou significativamente, com o preço de liquidação das diferenças (PLD) acumulando alta de cerca de 84% entre 2024 e 2026, enquanto a inflação no período ficou próxima de 5%. 

 

Curtailment agrava desequilíbrios do sistema

Apesar da expansão da geração renovável no Brasil, principalmente solar e eólica, o sistema elétrico não consegue escoar toda a energia produzida. Como consequência, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisou descartar aproximadamente 20% da geração renovável no último ano. 

O curtailment afeta diretamente os geradores, que precisam recompor no mercado a energia que deixaram de entregar, pressionando ainda mais os preços.

 

Crise de liquidez aumenta o risco do mercado

Por último, o terceiro fator é a crise de liquidez do setor. Muitas geradoras e comercializadoras passaram a enfrentar dificuldades para honrar contratos ou simplesmente encerraram operações, promovendo distratos com clientes em meio ao cenário de forte volatilidade.

A própria associação das comercializadoras, a ABRACEEL, já reconheceu publicamente a existência de uma crise de liquidez no mercado livre em 2026. Segundo a entidade, compradores têm enfrentado dificuldade para encontrar contratos de médio e longo prazo, aumentando a exposição ao PLD e o risco financeiro do setor.

Na prática, isso reduz previsibilidade, encarece operações e aumenta a cautela dos agentes na celebração de novos contratos.

O agravamento desse cenário já começou a gerar consequências regulatórias mais severas. Em 2026, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) realizou inabilitações compulsórias de comercializadoras varejista.

 

Como a Voltera atravessa esse cenário

Na Voltera, não sofremos impactos diretos relevantes da crise no mercado livre de energia atual por conta de uma estratégia mais conservadora da nossa operação.

Isso porque nós não tomamos posição direcional no mercado. Cada contrato que vendemos ao consumidor já possui lastro previamente contratado com geradores e parceiros comerciais. Ou seja, cada megawatt que entra na carteira já nasce com destino contratual definido.

Além disso, somos bastante rigorosos na seleção de contraparte, e temos um processo criterioso de avaliação de fornecedores antes da compra de energia. Isso fez com que nossa carteira não registrasse casos materiais de descumprimento contratual durante a crise atual.

Mas isso não significa que o cenário não tenha nos impactado. O principal efeito apareceu do lado da demanda.

 

A alta dos preços desacelerou a portabilidade para o mercado livre de energia

Percebemos a desaceleração da entrada de novos consumidores no mercado livre de energia.

Segundo dados da CCEE, houve queda de 36,5% na migração de consumidores no trimestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Esse movimento acontece por dois motivos.

  • O primeiro é conjuntural: o preço da energia subiu e a diferença de economia entre mercado livre e mercado cativo diminuiu.
  • O segundo é estrutural: a redução gradual do desconto da TUSD/TUST para fontes incentivadas, prevista na Lei 15.269/2025, diminuiu parte do benefício econômico que comercializadoras e geradores conseguiam repassar ao cliente.


Diante desses dois fatores, o
potencial de economia no mercado livre já vinha diminuindo mesmo antes da crise atual. Então, o cenário recente apenas acelerou e intensificou esse movimento.

  

O consumidor médio está sendo afetado de formas diferentes

Na minha visão, os impactos da crise no mercado livre de energia variam conforme o perfil do consumidor. Hoje, vejo três perfis bem diferentes dentro do consumidor médio. 

 

Clientes com contratos antigos seguem protegidos

O primeiro grupo é formado por consumidores que já estão no mercado livre e possuem contratos de longo prazo firmados anteriormente, em condições mais favoráveis.

Enquanto esses contratos forem devidamente honrados pelo fornecedor, o cliente permanece protegido das oscilações atuais do mercado e das altas do PLD, que é o principal benefício de um contrato de longo prazo bem estruturado.

Ainda assim, existem exceções, dependendo das condições negociadas em cada contrato. Consumidores com contratos mais curtos ou indexados já podem sentir os efeitos das renovações, muitas vezes com preços mais elevados.

  

Clientes que perderam contratos enfrentam o pior cenário

O segundo grupo é formado pelos consumidores que perderam seus contratos, seja porque o fornecedor decidiu  encerrar o acordo de forma unilateral, sem consenso entre as partes, seja porque a comercializadora encerrou suas operações.

Na minha visão, esse é o grupo mais impactado pela crise. Esses clientes precisam contratar energia novamente no cenário atual, com preços significativamente superiores aos praticados há dois anos.

Em alguns casos, os preços trimestrais acumularam alta superior a 100% nesse período, o que torna a recomposição do fornecimento muito mais difícil e onerosa.

 

Quem ainda não migrou está mais cauteloso

O terceiro grupo é composto pelos consumidores que ainda permanecem no mercado cativo. Muitos passaram a postergar a decisão esperando um cenário mais favorável.

Mas aqui existe um ponto importante: a crise não afeta apenas o mercado livre de energia. 

Os reajustes tarifários do mercado cativo também vêm avançando acima da inflação, próximos de 16% em ciclos recentes. 

Ou seja, o custo da energia no Brasil aumentou para todos os consumidores. A diferença é que, no mercado livre, o impacto aparece imediatamente nos contratos e no PLD. Já no mercado cativo, chega gradualmente por meio de reajustes anuais das distribuidoras.

Isso significa que esperar o mercado livre “baratear” não resulta, necessariamente, em economia, porque o mercado cativo também continua repassando aumento de custos.

 

A economia continua existindo, mas a régua mudou

Esse talvez seja o efeito mais visível da crise na percepção do consumidor.

Há dois anos, era comum encontrarmos contratos com descontos entre 25% e 35% em relação ao mercado cativo. Hoje, novos contratos costumam entregar economias mais próximas de 10% a 20%, dependendo do perfil do cliente e do prazo contratado.

O percentual é realmente menor, ainda assim, continua sendo uma economia relevante para empresas cujo custo de energia possui peso importante no caixa.

A diferença é que o consumidor começou a avaliar com mais cautela outros fatores além do preço.

 

O cliente mudou a forma de escolher comercializadoras

Como consequência desse momento, estamos vendo a alteração nos critérios de escolha do consumidor. A pergunta deixou de ser apenas “quanto eu economizo?”.

O cliente quer entender quem está do outro lado do contrato. Quer saber sobre:

  • robustez financeira da comercializadora;
  • histórico de execução;
  • qualidade do lastro contratual;
  • capacidade operacional;
  • estrutura de garantias;
  • governança e gestão de risco.


O consumidor médio também passou a demonstrar maior interesse em
entender sua própria conta de energia e buscar parceiros com capacidade técnica para atuar na gestão energética do negócio.

Na prática, isso é um sinal de evolução do mercado.

 

A crise também mudou o comportamento das comercializadoras

Hoje, o gerador está muito mais atento ao risco de crédito da contraparte e, entre as comercializadoras, vejo claramente uma divisão no mercado.

Esse aumento da exposição financeira também levou o regulador a endurecer mecanismos de proteção. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou recentemente novas regras para garantias financeiras na comercialização de energia, justamente em resposta ao avanço da inadimplência e da exposição entre agentes.

Na prática, isso aumenta a exigência de capital, governança e capacidade operacional das empresas.

E o cenário já vem produzindo mudanças relevantes na atuação das comercializadoras. Segundo reportagem da Reuters, algumas empresas reduziram drasticamente o volume negociado, encerraram áreas de trading ou passaram a operar com perfil muito mais conservador.

Há empresas encerrando operações de atendimento ao consumidor final por conta da volatilidade extrema e da pressão sobre as margens. Outras estão fortalecendo capital, investindo em capacidade técnica e aprimorando gestão de risco para continuar operando.

Existe ainda um terceiro grupo, no qual a Voltera se posiciona, que são as comercializadoras focadas exclusivamente no atendimento ao consumidor final, sem operação de trading direcional como linha principal de negócio.

 

A comercializadora do pós-crise será diferente

A comercializadora que vai sobreviver ao pós-crise precisará combinar capital, governança, gestão de risco e tecnologia operacional.

E quando falo em tecnologia, não me refiro a um diferencial secundário. Ela passa a ser essencial para garantir escala operacional, qualidade de atendimento e controle rigoroso de risco.

Por isso, na Voltera, estamos nos posicionando exatamente para esse cenário.

Seguimos focados no consumidor médio, especialmente pequenas e médias empresas, apoiados por uma plataforma tecnológica preparada para acompanhar a expansão do mercado conforme o cronograma de abertura avance.

Tecnologia, governança, solidez financeira e disciplina de risco fazem parte da nossa cultura desde a fundação.

 

O que deve mudar após passar crise no mercado livre de energia 

O setor elétrico brasileiro já passou por outros momentos difíceis e, historicamente, essas crises acabam acelerando a consolidação do mercado. Por isso, tenho uma visão otimista para os próximos anos.

A expectativa é que o avanço regulatório e a implementação de mecanismos previstos na Lei 15.269/2025 ajudem o mercado a recuperar gradualmente liquidez e reduzir o prêmio de risco hoje embutido nos preços.

Entre os temas em discussão estão, por exemplo:

  • criação do Supridor de Última Instância;
  • compensação para curtailment;
  • revisão das regras de garantia da CCEE.


Isso será fundamental para
viabilizar a abertura total do mercado de baixa tensão dentro do cronograma previsto: até o final de 2027 para empresas do Grupo B e até o final de 2028 para todos os consumidores brasileiros.

Então, em meio à crise, o mercado livre de energia começa a entrar em uma nova fase.

O preço continuará importante, mas já deixou de ser o único critério na escolha das comercializadoras.

Além disso, minha percepção é que a crise atual deve acelerar a consolidação e a profissionalização do setor, reduzindo o número de comercializadoras habilitadas e separando empresas preparadas para o longo prazo daquelas que dependiam apenas de um mercado favorável.